quinta-feira, 30 de maio de 2013

História e acontecimentos marcantes da freguesia de Palme (III)

Com este post fecha-se a digressão aos acontecimentos históricos mais marcantes da freguesia de Palme. Neste último capítulo abordam-se os episódios que ocorreram ao longo dos últimos duzentos anos, desde o início do século XIX até aos nossos dias. Contudo, o trabalho de investigação histórica não se dá por concluído (como o comprova o texto seguinte), ficando o compromisso de ir atualizando/retificando a informação à medida que surjam novos elementos. Do mesmo modo deixa-se o repto a todos que estejam na posse de informações não prestadas para que façam chegar as suas contribuições com o objetivo de enriquecer a análise histórica. Espera-se que os três posts publicados tenham sido do agrado de todos e que tenham servido para transmitir quão tão antiga e rica é a história da nossa terra.


Parte III
Do século XIX à atualidade

As invasões francesas foram um dos acontecimentos mais marcantes da história portuguesa do início do século XIX. Em particular, a segunda invasão (1809) teve uma repercussão direta na região Norte do país. Os invasores, comandados pelo general Soult, romperam pela fronteira de Chaves, com a determinação de chegarem ao Porto. Nessa caminhada, os gauleses depararam-se com a resistência oferecida pelo exército e pelas milícias populares, de que resultaram várias batalhas, tendo sido uma das mais sangrentas a que se travou às portas de Braga, cidade que, no entanto, viria a cair nas mãos dos invasores. Daqui, os franceses ocuparam diversas cidades, como Barcelos, e dirigiram-se para o Porto. Ao cabo de semanas de confrontos, o exército português, auxiliado pelas forças inglesas, deitou por terra os intentos do invasor, obrigando-o a bater em retirada por Barcelos e Ponte de Lima e daí para a Galiza. Na debandada, os invasores saquearam e vandalizaram o que puderam e envolveram-se em diversas escaramuças com as milícias populares. Há relatos que os barcelenses constituíram focos de resistência e emboscadas aos franceses, provocando-lhes diversas baixas, como sucedeu em Carvalhal. Na investigação efetuada, não há qualquer indício de que as tropas francesas tenham passado por Palme, nem à data da invasão, nem da sua retirada. Contudo há relatos de confrontos em freguesias próximas (Creixomil) e Teotónio (1987) refere que os gauleses estiveram nos Feitos. Por isso, não será de excluir que os palmenses tenham participado nas milícias populares ou que tenham, de algum outro modo, reagido à presença próxima do inimigo. Este é um assunto que se procurará aquilatar no futuro, para se perceber se houve um envolvimento ativo dos palmenses na resistência e/ou se os franceses estiveram efetivamente na nossa terra.

O ano de 1834 foi marcante na história da freguesia de Palme por dois acontecimentos. As reformas levadas a cabo pelos liberais determinaram a extinção das ordens religiosas em todo o país. Esta medida levou ao encerramento do mosteiro de Palme que à data da extinção contava já com um reduzido número de monges. Por conseguinte, o mosteiro e os terrenos envolventes foram desamortizados dos bens eclesiásticos e foram incorporados nos bens nacionais, tendo sido arrematados pela família Moniz de Moncorvo, mais concretamente pelo Bispo do Porto (D. António Bernardo da Fonseca Moniz). Por outro lado, 1834 corresponde também ao ano em que a freguesia de S. Salvador foi anexada à de Santo André, que passaram a ser conhecidas apenas por Palme. A fusão destas freguesias surge na sequência das reformas levadas a cabo nesta altura, que deram origem a um novo mapa administrativo, onde a nota dominante foi a redução do número de concelhos e de freguesias. A anexação de S. Salvador à freguesia de Santo André terá ficado a dever-se à maior dimensão demográfica e territorial desta última. Com este processo, os lugares de Bustelo, de Trás e do Mosteiro passaram a ficar integrados na freguesia de Santo André de Palme, que viu assim aumentar o seu território. De notar que alguns anos mais tarde, o desenho territorial da freguesia foi novamente alterado com a anexação da freguesia de Feitos à de Palme. Esta fusão durou 60 anos, período durante o qual a freguesia foi designada por Palme e Feitos. As freguesias separaram-se novamente em finais de 1904 conforme o decretado no alvará do Governo Civil de 27/12/1904, publicado no Diário do Governo (nº295) em 30/12/1904. Na segunda metade do século XIX, na sequência do Código Martins Ferrão, esteve iminente uma outra alteração administrativa que, contudo, não saiu do papel. O documento previa que Palme e outras freguesias limítrofes (como Fragoso) passassem a integrar o concelho de Esposende, mas esta proposta não foi avante, pois o referido Código não chegou a entrar em vigor, uma vez que foi alvo de forte contestação popular.

Em meados do século XIX, Palme deu título a um baronato: o Barão de Palme. Trata-se do mais baixo dos títulos da nobreza (inferior ao de Conde ou de Duque, por exemplo), com o qual foi agraciado José Maria da Fonseca de Moniz, irmão do bispo do Porto que comprara o mosteiro. O primeiro barão de Palme destacou-se pela determinação dos seus ideais e pela bravura com que os defendeu. Participou na Guerra Peninsular, combatendo as tropas Napoleónicas; esteve exilado em Inglaterra por ser contrário à governação absolutista de D. Miguel; da Inglaterra passou para a ilha Terceira, único ponto do país que não se subjugou ao domínio de D. Miguel; foi um dos bravos que desembarcou no Mindelo em 1832; lutou durante as guerras civis sempre ao lado dos liberais, tendo ficado ferido na batalha da Ponte Ferreira e na acção das linhas de Lisboa; participou nas lutas de Maria da Fonte; em 1846 e em 1851-52 foi Deputado na Assembleia, tendo também participado no movimento da Regeneração. Por esta intensa carreira político-militar, José Fonseca de Moniz viria a ser agraciado com o título de barão de Palme em 2 de Junho de 1851. O seu corpo jaz na capela do mosteiro, num mausoléu de mármore que tem a seguinte inscrição: ”Aqui jaz José Maria Fonseca de Moniz barão de Palme brigadeiro do exército nasceu a 20 de Dezembro de 1794 e faleceu em Lisboa a 20 de Dezembro de 1862. Em testemunho de saudade fraterna” (Teotónio, 1987). Os barões de Palme que se seguiram foram D. Gertrudes Ermelinda Moniz e José Cardoso Moniz que eram respectivamente filha e neto do primeiro barão.

Um dos acontecimentos históricos mais marcantes da freguesia de Palme no dealbar do século XX (1903) foi a passagem do rei D. Carlos pela nossa terra. As maiores manobras militares do tempo da monarquia ocorreram no reinado de D. Carlos. As ações militares foram realizadas sob o comando do Ministro da Guerra da altura, o General Luís Augusto Pimentel Pinto. O palco das operações foram os montes das freguesias de Feitos, Palme e Fragoso. Os exercícios militares aconteceram nos dias 15-18 de Setembro de 1903 e foram  presididos in loco pelo rei D. Carlos e pelo infante D. Afonso. Consta-se que as manobras atraíram um grande número de populares e de curiosos. Um deles, que viria a ficar conhecido por Zé Maneta, terá encontrado uma peça de artilharia que, ao manuseá-la, lhe explodiu nas mãos. Na sua viagem para assistir às manobras, o rei D. Carlos mandou levantar uma tenda junto à actual EN103, à sombra de um sobreiro, que viria a ficar conhecido por “Sobreiro do Rei” que ainda não há muitos anos podia ser admirado por quem por ali passasse. Segundo os relatos da época, este acontecimento atraiu muitos populares que acorreram ao local com o intuito de lobrigar o Rei, o que não foi tarefa fácil, pois de acordo com testemunhos da época, a tropa, montada a cavalo, formava um círculo de segurança em torno dos elementos da comitiva. Idêntico espanto e assombro deve ter causado aos populares o automóvel em que D. Carlos viajava, pois muitos deles (senão mesmo a totalidade) jamais teria visto tal veículo motorizado que, muito provavelmente, foi o primeiro a percorrer os caminhos da nossa terra.

Ainda no início do século XX, um outro aspecto digno de relato relaciona-se com a venda da valiosa biblioteca do mosteiro de Palme. A coleção de livros que os monges deixaram atrás de si despertou o interesse de um alfarrabista de Lisboa (Manoel dos Santos), que se meteu ao caminho para tentar fazer negócio com o herdeiro do antigo bispo do Porto, para quem a posse do mosteiro transitara. Depois de pernoitar na cidade de Viana do Castelo, o alfarrabista deslocou-se de comboio até Barroselas, onde alugou um carro de tracção animal que o trouxe até Palme. O pitoresco desta história reside na recusa do caseiro do mosteiro em servir carne ao esfaimado alfarrabista, uma vez que era sexta-feira e era necessário guardar a abstinência. Valeu-lhe a intervenção de dois padres que entretanto surgiram e, depois da visita à livraria com o Fidalgo, lá condescenderam que o faminto almoçasse uma pratada de ovos com chouriço, devidamente regada com vinho verde. O negócio com o Fidalgo viria a consumar-se algum tempo depois. A ampla e valiosa colecção de livros do mosteiro viria a ser vendida a partir do dia 5 de abril de 1915 em Lisboa. O alfarrabista vendeu 1153 lotes da biblioteca, os quais renderam 2465$77, sendo conhecida uma relação das pessoas que compraram os livros (Dias, 2011). Os títulos do livro do mosteiro de Palme constam de um inventário de 1834 (Dias, 2011).

Como é sabido, o princípio do século XX ficou marcado pela I Guerra Mundial, conflito no qual Portugal participou contra os Impérios do Eixo. O Corpo Expedicionário Português enviado para combater na Flandres contou com vários homens naturais de Palme. Três deles tombaram em combate em França: um segundo cabo (João Joaquim de Sá Faria) e dois soldados (Adelino de Sá e Manuel Faria). O flagelo da guerra viria a chamar mais portugueses nas décadas de 1960/70 (Guerra Colonial), conflito em que caiu em combate mais um Palmense.

O ano de 1939 ficou na memória de todos por causa de um fenómeno de origem natural que se abateu sobre Palme e sobre as freguesias vizinhas. Nesse ano, uma forte intempérie provocou uma enxurrada de invulgar capacidade destrutiva, que atingiu Palme, mas também Feitos, Aldreu e Fragoso. A borrasca atingiu mais severamente os lugares situadas na encosta do monte. A força das águas destruiu tudo à sua passagem, incluindo algumas azenhas que estavam instaladas ao longo dos ribeiros. Uma delas foi arrastada até à ponte da Aldeia, obstruindo a passagem da água que, por esse motivo galgou o tabuleiro da ponte. O caudal da água foi tanto que chegou às janelas de algumas habitações localizadas perto do ribeiro da Aldeia. Os terrenos junto ao ribeiro também foram atingidos, tendo ficado atulhados de areia e de pedregulhos que foram arrastados monte abaixo. Apesar dos contornos violentos do fenómeno, não houve vítimas a lamentar.
O início do século XX foi também marcado por uma questão administrativo-eclesiástica que viria a deixar sequelas para as décadas seguintes, pois tanto a freguesia de Palme como a de Aldreu reclamavam a posse do mosteiro. O ponto principal da discórdia relacionava-se com o traçado da divisória entre as duas freguesias: Aldreu reclamava que o limite administrativo passava bastante mais a Sul do que era considerado até então, pelo que o mosteiro estava integralmente localizado na freguesia; Palme contestava que o limite obedecia a um traçado antigo e que não podia ser alterado, o que implicava que o mosteiro continuasse em Palme, facto que estava até na origem da própria designação do mosteiro. Do ponto de vista religioso, a contenda serenou com a sentença do Tribunal Eclesiástico de Braga de 14-01-1929, que determinou que, eclesiasticamente, o mosteiro pertence à freguesia de Palme. Escudado nesta decisão, o pároco de Palme continuou a deslocar-se ao mosteiro para celebrar uma das missas dominicais, num gesto de afronta que, obviamente, não era do agrado da população de Aldreu. O Padre Francisco Ribeiro, de Palme, foi um dos que mais se insurgiu contra a integração territorial do mosteiro em Aldreu, posição que por diversas lhe pôs em perigo a integridade física aquando das suas incursões à freguesia vizinha. Acicatados pelos clérigos, os populares deram mostras do seu desagrado e a convivência entre as duas freguesias foi difícil durante anos por causa desta questão. As placas identificadoras das freguesias eram o alvo preferencial do desagrado dos populares, sendo frequentemente vandalizadas e repelidas para os locais considerados como limite correto pelos populares de cada freguesia. Só nos últimos anos esta questão parece ter serenado, com a resignação dos de Palme, embora o traçado da divisória ainda não seja um assunto consensual. A própria localização das placas identificadoras das freguesias na EM 305 é disso um bom exemplo, pois sugere que há ali alguns metros de terreno que são disputados por ambas as freguesias.

Bibliografia
- Dias, G. (2011) "As bibliotecas nos mosteiros da antiga congregação beneditina portuguesa". In Revista CEM, Cultura Espaço e Memória, Nº2.
- Teotónio, A. (1987) O Concelho de Barcelos Aquém e Além Cávado, Boletim do Grupo Alcaides de Faria, Barcelos.
- Revista “O Tripeiro” Ano IX, Nº1, pp.17-23.




Fonte: O Tripeiro, 1953.
José Maria da Fonseca Moniz - o primeiro barão de Palme


Fonte: O Tripeiro, 1953.
D. António Bernardo (Bispo do Porto) - o primeiro proprietário do mosteiro de Palme


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

História e acontecimentos marcantes da freguesia de Palme (II)


Neste primeiro post do enigmático ano de 2013 pretende-se dar sequela à “História e acontecimentos marcantes da freguesia de Palme” iniciado em Outubro passado. Depois de fazermos uma incursão aos períodos mais remotos da nossa terra, está na hora de seguir viagem até ao período medieval. Apesar de mais recente, os relatos sobre os factos históricos ocorridos durante este largo período de mil anos não são muito abundantes sobre a nossa terra. A análise fica, assim, cingida às fontes que sobreviveram a esse largo período de trevas e chegaram aos nossos dias. Pretende-se desta forma trazer alguma luz sobre os aspectos históricos que mais marcaram a nossa terra neste período que, por uma questão de conveniência, foi alargado até finais do séc. XVIII.

Parte II

Da Idade Média a finais do séc. XVIII
A actual freguesia de Palme compreende uma área que, em tempos, esteve repartida por duas freguesias: S. Salvador de Palme e Stº André de Palme. 
        Os registos mais antigos que se encontram são relativos à freguesia de S. Salvador, devido ao mosteiro beneditino que ali foi construído e que, actualmente, é conhecido por mosteiro de Palme (Figuras 1 e 2). A data de construção deste mosteiro não é conhecida, mas sabe-se que é anterior à fundação da Nacionalidade. A primeira referência documentada é de 1113, mas alguns autores consideram que a sua origem é mais antiga. De acordo com algumas teses, julga-se que, em tempos remotos, os terrenos onde o mosteiro foi construído pertenciam a uma quinta do fidalgo Lovesendo, filho de Sazi, que, em 1029, os doou à ordem de S. Bento para ali fundar um mosteiro, atribuindo-lhes muitas rendas e outros benefícios para o sustento dos monges. Uma outra teoria é a de que o mosteiro foi mandado edificar por um rei visigodo que fora curado por um monge. Porém, como o arquivo medieval se perdeu, não é possível assegurar como certos estes factos, nem constituir a história do mosteiro durante um largo período de tempo. Sabe-se todavia que, em 1213, o abade do mosteiro foi nomeado pelo Papa Inocêncio III para julgar o caso de um excomungado que morreu penitente. Num documento do séc. XIII (as Inquirições de 1258) é definida a contribuição que o mosteiro de Palme teria de dar à Coroa: «in judicato de Nevia Item in Moesteiro de Palmi, que do Couto desse devandito Moesteiro davam al Rey cada ano 23 maravedis; et leixou ao Moesteiro 3 maravedis, et Sancto Jacobo et Sancto Andre, que jazem in esse Couto, 1 maravedi, et dam os destes devandito Couto cada ano al Rey 19 maravedis: et vam ao Caetello» (Teotónio, 1987). O maravedi era a designação dada às moedas de ouro cunhadas pela Coroa. O número de moedas com que teria de contribuir para a Coroa dava já uma ideia da riqueza que o mosteiro tinha em pleno séc. XIII conseguida, em larga medida, pelas doações feitas pelos particulares, frequentes vezes para alcançarem a de remissão dos pecados. No séc. XIV sabe-se que o mosteiro figurava entre as numerosas propriedades de D. Berengária Aires (1302), que era aia da Rainha Santa Isabel. Os privilégios do mosteiro foram mais tarde confirmados por D. Pedro, D. João I, D. Duarte, D. Afonso V e por D. Manuel I. O mosteiro foi ainda administrado pelos abades Comendatários, leigos por norma poderosos, que eram nomeados pelo clero para administração dos mosteiros. Estes abades ficaram conhecidos por fazerem uma gestão ruinosa dos mosteiros por onde passavam, pois colocavam quase sempre os seus interesses pessoais à frentes dos eclesiásticos. O caso do mosteiro de Palme não foi excepção.  O último comendatário a administrá-lo foi o bispo da Guarda (D. João de Portugal), que tirava anualmente de renda do mosteiro mais de quinhentos mil réis, quantia muito avultada para a época (século XVI). Pouco depois, D. Fr. Bartolomeu dos Mártires efectuou a reforma do convento, por ordem do cardeal D. Henrique, corria o ano de 1568. Depois desta reforma, o convento voltou a ser administrado pelos monges beneditinos, que nele meteram Prior (1575), tomando o título de abade em 1588. Neste ano, o mosteiro foi incorporado definitivamente na Congregação Portuguesa, onde sempre foi um mosteiro secundário. Tão pobre voltou, porém, este convento para os beneditinos e tão sobrecarregado de obrigações que apenas podia alimentar meia dúzia de monges, número que contava à data da sua extinção, em 1834. Enquanto mosteiro beneditino, tinha couto e direito de apresentação nas freguesias de S. Bartolomeu do Mar, Stª Marinha de Forjães, Stº André de Palme, Santiago de Aldreu e Stº André de Teivães.
Apesar de actualmente estar bastante arruinado (Figuras 3 e 4), o mosteiro guarda ainda diversos elementos que atestam a sua opulência passada. À entrada surge um portão de ferro com o escudo dos Fonsecas Monizes e Castros (Figura 5), que foram os primeiros barões de Palme. De frente a este portão, foram construídos dois lanços de escadas que dão acesso a um patamar com o seu alpendre, que é hoje a entrada principal para o antigo convento (Figura 6). Por baixo desse patamar, encontra-se um interessante fontanário, onde foi colocado um lindo pórtico manuelino (Figura 7), que se julga ser o antigo pórtico do mosteiro. No perímetro do mosteiro pontificam grandes tanques, fontanários e pedras dispersas bem lavradas (Figura 8). Ao lado Norte da capela acha-se o antigo lagar de azeite para onde a água, proveniente de nascentes do monte do Crasto, vinha em caleiras de pedra suspensas em altas colunas (Figuras 9). Igualmente de valor patrimonial é a capela do mosteiro de Palme. Trata-se de um pequeno edifício, constituído apenas pela capela-mor e por parte do corpo da igreja gótica do século XIV, vendo-se bem que foi cortado transversalmente e feita uma nova frontaria de estilo singelo. Dentro, a capela-mor é em abóbada de pedra artesoada, com florões nos fechos (Teotónio, 1987). Um outro elemento e que, infelizmente se está a perder, é a belíssima araucária (Araucaria brasiliensis) que se ergue junto ao mosteiro e que, ao que parece, foi um dos primeiros exemplares a ser introduzidos em Portugal. Dada a qualidade patrimonial do edifício e o carácter pitoresco do local, o mosteiro já acolheu artistas, diversas personalidades e serviu de pano de fundo à realização do filme "Julie Chevalier de Maupin". A freguesia de S. Salvador de Palme foi extinta no séc. XIX e o seu território (que era constituído pelos lugares do Mosteiro, de Trás e de Bustelo) foi integrado na freguesia de Stº André de Palme. Mas esta questão será oportunamente analisada no próximo número.
            Em relação à freguesia de Stº André de Palme, as referências históricas são mais escassas. De acordo com Teotónio (1987), a primeira referência conhecida remonta a 1220 sob a designação de “Parvães” (topónimo que parece corresponder ao actual lugar de Brirães), mais tarde designou-se “Pavianos” e, finalmente, Palme, altura em que ficou subordinada ao mosteiro de S. Salvador de Palme. Nessa altura, a freguesia era orago de Santo André e vagaria da apresentação do abade do mosteiro beneditino de S. Salvador. O Padre António Gomes Pereira, refere que a palavra “Palme” vem do genitivo Palmae, da palavra latina palma, a palmeira. Era usual que os romeiros que vinham de regresso da Terra Santa trouxessem um ramo de palmeira, em reconhecimento do fim da romaria ou da peregrinação. Existia mesmo em Lisboa e no Porto Hospitais de Palmeiros, para acolher os peregrinos que vinham da Terra Santa e de outros santuários do cristianismo, como Santiago de Compostela. Aos peregrinos que traziam a folha de palmeira da Terra Santa, chamavam-se “Palmeiros” e às terras onde fixavam a sua residência, “Palmeira”, “Palma” ou “Palme”. Parece, pois, ser esta a origem da designação da nossa terra.
Do primeiro quartel do século XVIII (1725) data a igreja paroquial de Palme, como se pode comprovar pela inscrição existente na peanha onde está a figura em pedra do padroeiro da terra, Stº André. Porém, como observa Teotónio (1987), o facto da imagem ser muito pequena para a peanha onde está, sugere que terá pertencido ao edifício anterior desta igreja, que seria mais baixo e pequeno. Contudo, desconhece-se a fundação do templo primitivo da freguesia.
Um outro aspecto que terá marcado a vida dos nossos antepassados que viveram no período medieval foi a passagem da rainha Santa Isabel na peregrinação que fez a Santiago de Compostela no ano de 1326. Os caminhos mais importantes que ligavam o Norte de Portugal a Santiago de Compostela eram o Caminho do Noroeste (Porto - Vila do Conde – Viana - Valença), o Caminho do Lima (Porto - Vila do Conde – Barcelos - Ponte de Lima - Valença) e o chamado Caminho do Norte, também designado por Caminho da Rainha. Após a travessia do rio Cávado em Barcelos, este percurso seguia por Abade de Neiva, Vilar do Monte, Feitos e Fragoso. O traçado do caminho passava a nascente de Bustelo, entre o monte de S. Gonçalo e o Olho Marinho ainda ali existente, de onde descia para a antiga ermida de S. Vicente (hoje capela de S. João) e daí para a ponte do rio Neiva. Apesar do traçado do caminho não atravessar o perímetro de Palme, a sua proximidade e a passagem de tão nobre peregrina deverá ter sido um acontecimento memorável para as gentes de Palme e das freguesias envolventes. Alguns relatos referem mesmo que a rainha terá pernoitado no mosteiro de Palme, mas não há provas concludentes a esse respeito. No entanto, a localização junto a uma antiga via romana reforça a ideia que o mosteiro de Palme poderá ter exercido um papel importante no apoio aos peregrinos que se deslocavam para Santiago de Compostela. Como refere Beirão (2002), Palme fazia parte de um outro caminho de Santiago que, do Porto, passava por S. Pedro de Rates, Barqueiros, Barca do Lago, Palme e Fragoso e daí para o couto de Capareiros (Barroselas). Este itinerário, que corresponde, em parte, ao troço da actual EM 305, resulta do aproveitamento de uma antiga estrada medieval que, por sua vez, foi decalcada a partir de uma via romana. Esta ideia não é nova, pois já em 1978, o estudo realizado por Almeida (1978) mostrava que estas freguesias eram atravessadas por uma estrada medieval, cujo traçado resultava de uma antiga via romana que passava por este território.

Bibliografia

- Almeida, C. (1978) Arquitectura românica de Entre Douro e Minho, Tese de Doutoramento,    FLUP, Porto.
- Beirão, J. (2002) Fragoso, um couto em terras de Neiva, Fragoso.
- Teotónio, A. (1987) O Concelho de Barcelos Aquém e Além Cávado, Boletim do Grupo Alcaides de Faria, Barcelos.



Figura 1:Visão panorâmica do mosteiro de Palme


                                           Figura 2:O mosteiro de Palme - visão parcial


Figura 3: Muro em ruína no mosteiro de Palme


Figura 4: Ruína dos antigos claustros


Figura 5: Brasão no portão de entrada do mosteiro


Figura 6: Porta de entrada principal


Figura 7: Pórtico Manuelino (provável antigo pórtico principal do mosteiro)


Figura 8: Capitel existente nas imediações do mosteiro


Figura 9: Aqueduto suportado em colunas de pedra para o transporte de água

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A proposta de reorganização administrativa para Barcelos da Unidade Técnica


Depois do Tribunal Constitucional ter chumbado a proposta de referendar a RATA do Relvas (soa mal mas é assim mesmo a sigla da Reforma Administrativa Territorial Autárquica…e reparem que eu disse Relvas e não Dr. Relvas, que é o pai da RATA) em Barcelos e depois da Assembleia Municipal se ter pronunciado pela manutenção das actuais 89 freguesias, o processo seguiu para a designada Unidade Técnica para a Reorganização Administrativa do Território, que assim passou a ter a incumbência de fazer chegar à Assembleia da República uma proposta de reorganização administrativa. E acabadinha de sair, aí está a proposta da Unidade Técnica para Barcelos. Numa primeira abordagem, a proposta é muito lacónica, tem a secura de um depoimento e uma repetição enjoativa de “considerandos” que percorrem o texto do princípio ao fim. Mas deixando para trás a forma estandardizada que deve ter sido utilizada para compilar as dezenas de relatórios que a Unidade Técnica se viu obrigada a produzir, a proposta surpreende por ficar aquém do que era esperado e por propor algumas soluções improváveis. Como se referiu em posts anteriores, a transposição cega dos critérios da Lei nº22/2012, de 30 de Maio, levaria a uma razia no mapa administrativo, pois nenhuma freguesia cumpria os requisitos populacionais estipulados. Agora, a Unidade Técnica apresenta duas propostas: a solução A que corresponde à aplicação dos critérios da referida Lei; e a solução B que a mesma equipa considera ser mais consentânea com a realidade do território. Na proposta A, a unidade técnica propõe a fusão das seguintes freguesias:

- Barcelos, Vila Boa, Vila Frescaínha de São Martinho e Vila Frescaínha de São Pedro;
- Alvelos e Barcelinhos;
- Alvito S. Pedro, Alvito S. Martinho e Couto;
- Creixomil e Mariz;
- Chorente, Góios, Courel, Pedra Furada e Gueral;
- Alheira e Igreja Nova;
- Viatodos, Grimancelos, Minhotães e Monte de Fralães;
- Sequeade, Bastuço de S. João e Bastuço Stº Estêvão;
- Gamil e Midões;
- Areias de Vilar e Encourados;
- Vila Cova e Feitos;
- Campo e Tamel S. Fins;
- Quintiães e Aguiar;
- Milhazes, Vilar de Figos e Faria;
- Vilar do Monte e Stª Leocádia;
- Durrães e Tregosa;
- Negreiros e Chavão;
- Carreira e Fonte Coberta.

A proposta B mantém todas as fusões anteriores com excepção de Alvelos/Barcelinhos e acrescenta ainda a fusão de:
- Silveiros com Rio Covo Stª Eulália,

No total, as propostas prevêem a extinção de 46 freguesias, o que corresponde a cerca de metade das actualmente existentes. No entanto, da proposta ressurgirão 18 novas freguesias às quais é proposto o estapafúrdio nome de “União das freguesias de…”. Se esta proposta de designação fosse mantida, um actual residente em Barcelos passaria a morar na “União das freguesias de Barcelos, Vila Boa, Vila Frescaínha de São Martinho e Vila Frescaínha de São Pedro”! Já imaginaram o número de linhas que seria preciso acrescentar nos documentos oficiais para acomodar tão longas e pomposas(?) designações? Sem comentários…Seque-se que feitas as contas do deve e do haver, Barcelos perderá um total de 28 freguesias, passando então a contar com 61.
Como já aqui se expressou, a reorganização administrativa não é um erro em si mesmo, bem pelo contrário, e justifica-se até em muitos casos, como em Barcelos. O que está errado é o pressuposto economicista que lhe está subjacente e a forma como o processo político foi conduzido, quer a nível central (de imposição e à revelia da autonomia do poder local), quer a nível municipal, onde houve um alheamento propositado para atrasar o processo e para evitar penalizações nas próximas eleições autárquicas. Já para não falar que o presidente da Unidade Técnica (Manuel Porto) referiu publicamente que não era entusiasta desta reforma administrativa. Por isso, a reforma nasceu torta, o processo decorreu de forma inquinada e a proposta enferma da falta de legitimação das entidades locais. E evitavam-se propostas descabidas como a de agregar Barcelos, uma das duas freguesias urbanas do município, a um conjunto de freguesias de características mais rurais. Nos restantes casos, as soluções propostas são mais naturais, algumas delas vão ao encontro de algumas aproximações feitas nos últimos meses (Chorente, Góios, Courel, Pedra Furada e Gueral; Vila Cova e Feitos), mas resta esperar pela reacção das Juntas e das populações para se aferir o seu grau de concordância com o desenho proposto. E obviamente, a posição da Câmara Municipal.
Agora o que não deixa de ser surpreendente é o número de freguesias que escaparam de forma ilesa ao crivo utilizado pela Unidade Técnica. Neste lote de sobreviventes surge a nossa freguesia, bem como muitos outros casos como a freguesia de Aldreu que, com 904 habitantes, mantém intactas as suas fronteiras. Como também se referiu oportunamente, nenhuma destas freguesias tinha dimensão demográfica suficiente para se manter como tal, sendo que o cenário mais previsível seria a diluição de Palme, Aldreu e Fragoso. Porém, a proposta da Unidade Técnica mantém o estatuto destas e de muitas outras freguesias de Barcelos. Resta saber porquê. Por falta de tempo para uma reforma mais aprofundada? Por incompetência técnica de interpretação dos critérios? Por suavização dos critérios considerados? Por orientações do Relvas para não criar ainda mais ruído em torno da já de si depauperada imagem? Por acção de lobbies instalados nas freguesias? Ou será que foi pelas recomendações deixadas neste blogue? (improvável). Qualquer que seja o motivo parece que Palme vai continuar a existir como tal, o que acarreta algumas desvantagens, mas também diversas vantagens, nomeadamente para aqueles que têm pretensão de fazer carreira política na Junta. E evita outros transtornos menores, como a necessidade de mudar o nome deste blogue de referência (já viram se o blogue fosse uniãodasfreguesiasdePalmeAldreueFragoso@blogspot.pt), era de fugir!). Por agora resta esperar pelas reacções das pessoas, dos autarcas e dos partidos e pelo desfecho que este processo vai ter. Ficam desde já prometidas para breve novas intervenções sobre este assunto assim que se justificar. Comentários, sugestões, críticas: freguepalme@hotmail.com




Proposta A de Reorganização Administrativa de Barcelos da Unidade Técnica



Proposta B de Reorganização Administrativa de Barcelos da Unidade Técnica

terça-feira, 30 de outubro de 2012

História e acontecimento marcantes da freguesia de Palme (I)


Os seguidores mais atentos deste blogue deverão recordar-se que, num dos posts passados, ficou a promessa de trazer aqui uns apontamentos sobre a história de Palme. Adverte-se desde já que por este blogue não milita nenhum historiador, arqueólogo ou qualquer outro cientista social afim pelo que, se alguém mais entendido detectar alguma imprecisão ou equívoco, deverá pronunciar-se para bem do rigor histórico (os comentários serão bem-vindos assim como mensagens para o email: freguepalme@hotmail.com). O trabalho que se segue resulta de uma breve investigação e na compilação de informação dispersa por vários documentos, com o objectivo de explicar quão tão antiga é a presença humana na nossa terra e de desvendar alguns dos momentos e dos episódios mais significativos do seu passado. Daí o sugestivo (ou nem por isso) título de “História e acontecimentos marcantes da freguesia de Palme”. Para o texto não se tornar demasiado longo e fastidioso, optou-se por fraccioná-lo em três partes: (i) da pré-história à Idade Média; (ii) da Idade Média ao século XIX; (iii) do século XIX à actualidade. Assim, cada um dos três posts assumirá a forma de um pequeno fascículo sobre cada um daqueles períodos. Espera-se desta forma contribuir para um melhor entendimento da presença humana no território e para a necessidade de preservar o legado que os nossos antepassados nos deixaram sob a forma do património material e imaterial, que se reflecte na nossa memória colectiva e naquilo que somos. Nesta primeira viagem, a partir dos vestígios que chegaram aos nossos dias, recuámos ao período mais distante que nos é possível determinar e que constitui o ponto de partida para esta digressão à história de Palme.


Parte I

Da Pré-história à Idade Média
A ocupação humana no território que corresponde à actual freguesia de Palme remonta a tempos muito recuados, havendo vários vestígios que comprovam a presença humana desde a pré-história, nomeadamente na zona correspondente ao planalto da Figueiró. Até à abertura da EN 103, no século XIX, o planalto da Figueiró era uma área relativamente remota e de difícil acesso. Nessa zona foram encontrados vários vestígios pré-históricos, que são difíceis de determinar, mas que Almeida (1993) situa no contexto do Megalitismo do Norte de Portugal (nos III e II milénios a.C.). Mas fora desta zona também foram encontrados artefactos muito antigos. Por exemplo, nas imediações do Mosteiro de Palme foi encontrado um sílex com cerca de 6000 anos. Outras peças de pedra trabalhadas em quartzite foram encontradas nos montes de Fragoso e de Carapeços, assim como vários restos arqueológicos da Idade do Bronze e do Ferro. Deste modo pode concluir-se que o Homem se fixou no território correspondente à actual freguesia de Palme e na sua envolvência há muitos milhares de anos atrás. Os testemunhos deixados pelos nossos antepassados são, por isso, de inegável valor histórico e patrimonial. Os mais importantes, alguns dos quais ainda podem ser observados nos locais originais, são constituídos pelas mámuas e pelos menires (Figura 1). O maior número destes monumentos, que remontam à Idade do Bronze e do Ferro e que se integram na chamada Civilização Castreja, foi encontrado, precisamente, no planalto da Figueiró.
As mámuas são monumentos funerários, têm uma forma circular e convexa, que resulta do topo ter sido fechado por lages de pedra, as quais eram depois cobertas por terra. Apresentam uma dimensão muito variável, que pode ir de alguns metros de diâmetro até várias dezenas de metros. A crença de que as mámuas tinham escondidas riquezas que foram sepultadas com os mortos, levou à sistemática violação destes monumentos funerários, pelo que muitas delas foram destruídas ou vandalizadas ao longo do tempo.
No perímetro de Palme são conhecidas quatro mámuas, embora existam mais algumas nas imediações, nomeadamente nos Feitos (Poço do Vintém) e em Fragoso (nas proximidades do Monte de S. Gonçalo). Uma das mámuas conhecidas está localizada no Souto de Cerquido, perto da EN103. Trata-se de um monumento funerário pequeno, com câmara violada, com um “tumulus” e um corredor voltado para Nascente. Nos limites de Palme com Vila Cova está também implantada junto à EN uma mámua com características idênticas, sendo conhecida por “mámua do Sobreiro do Rei” (Almeida, 1993). Está localizada a curta distância da berma da EN103, a escassos metros do entroncamento do acesso a Vila Cova. Junto ao caminho que liga a referida EN a Bustelo, no lugar conhecido por Vilar, encontram-se mais duas mámuas (Oliveira, 1982). A primeira delas surge do lado esquerdo no sentido da EN 103 para Bustelo, numa bouça, a escassos metros de uma moradia que ali foi construída (Figura 2). É um monumento largo, de planta circular, com cerca de 20 metros de diâmetro por 1 metro de altura. Tem uma cratera de violação não muito profunda mas muito abrangente. A segunda delas está distanciada a 950m da primeira, encontrando-se a cerca de 15m do muro do caminho que vai de Bustelo ao lugar de Sião. É bastante mais pequena, tendo 8m de diâmetro por 1,5m de altura. Tal como a anterior, esta mámua apresenta uma cratera de violação, mas menos profunda. A curta distância destas, mas já na vizinha freguesia de Feitos, localiza-se a mámua do Poço do Vintém, também ela de pequenas dimensões e com sinais de vandalização: as pedras do interior foram retiradas e a câmara do túmulo passou a ser utilizada como depósito de lixo. Nesta área de Vilar/Bustelo/Feitos, Almeida (1993) refere que existiam mais duas mámuas que entretanto foram totalmente destruídas. Mais para Nascente, nas imediações do Monte de S. Gonçalo (Fragoso), existem mais duas mámuas. Uma delas localiza-se no lugar conhecido por Ferração, na encosta pedregosa do referido monte que está virada a Sul. A outra corresponde ao local onde está implantado o marco geodésico, que foi colocado sobre a câmara de uma mámua de pequenas dimensões. Fora desta área, na extremidade Sul dos terrenos pertencentes ao Mosteiro de Palme (Aldreu) existe outra mámua (Figura 4). O conhecimento desta mámua não é novo, pois já em 1873 foi colocado sobre o túmulo uma inscrição que diz: “aqui e no monte do Crasto há indícios e ruínas da decadência dos romanos. Tudo passa.” (Teotónio, 1987). Esta inscrição permite concluir que, pelo menos na segunda metade do século XIX já era conhecida a natureza do pequeno montículo que resguardava o monumento, bem como das ruínas do monte do Crasto. O erro foi o de atribuir estas construções aos romanos, uma vez que a sua origem é mais recuada. A cerca de 200m a poente desta última está localizada outra mámua de dimensões ainda maiores. Tem uma configuração cónica, um diâmetro de 55m e uma altura de 8m. De todas é a única que aparenta não ter sido violada (Maciel, 1997). Por esta razão, o lugar onde está implantada (consiste numa pequena mancha florestal) é conhecido por “Mámua”.
Quanto aos menires, o seu conhecimento e identificação ficou a dever-se aos trabalhos do Dr. Penteado Neiva, que levou a cabo um conjunto de prospecções arqueológicas no planalto da Figueiró, na década de 1970. O estudo permitiu identificar a existência de dois menires, que estavam localizados na divisória de Palme com Feitos, tendo sido posteriormente ambos deslocados. Os menires correspondem a blocos rochosos, em regra de forma fálica, que eram erigidos pelos povos do Megalítico em homenagem ao culto da fertilidade. De acordo com Almeida (1993), estes dois menires em conjunto com os existentes no vizinho concelho de Esposende (S. Paio Antas, Forjães e S. Bartolomeu do Mar) formam o mais importante núcleo megalítico deste tipo de monumentos de todo o Norte de Portugal. Um dos menires é conhecido por “Marco da Zarelha” (Figura 5). Inicialmente estava localizado na Bouça do Quinhão, a escassos metros de uma das mámuas situadas no caminho para Bustelo. Em 1989, com as obras de alargamento deste caminho, o menir foi removido e foi colocado no largo defronte à sede da Junta dos Feitos, onde foi implantado numa espécie de vaso de tijolo e betão (atentado maior seria difícil de perpetrar!). Originalmente, o menir tinha 1,80 metros de altura, dos quais 0,40 metros estavam enterrados) e encontrava-se ligeiramente inclinado para Sul. Como é comum neste tipo de monumentos, o menir tem uma forma fálica, que foi conseguida pelo adelgaçamento da sua parte superior e pela inclinação dada. Foi construído em granito grosseiro, o que explicará a maior erosão detectada na sua parte superior. Nesta há um chanfro rectangular que foi mais tarde esculpido para dependurar uma cruz de madeira, com a qual o menir era decorado sempre que no caminho passava uma procissão a caminho de um calvário situado junto a Bustelo.
O outro menir é conhecido por “Pedra do Coelho” (Figura 6) e estava também localizado na divisória entre Palme e Feitos. A descoberta deste menir foi algo fortuita, pois ficou a dever-se à informação de um morador de Bustelo, aquando dos preparativos da remoção do Marco da Zarelha. Nessa altura, o previdente habitante informou os Serviços da Câmara que uma pedra idêntica havia sido enterrada ali próximo, na sequência das mesmas obras de alargamento do caminho. Com base nesta informação, os Técnicos do município resgataram o menir enterrado, que foi levado para o Museu Arqueológico de Barcelos, onde ainda hoje pode ser observado. A Pedra do Coelho tem características muito idênticas às do outro menir (dimensão, forma fálica, inclinação, existência de um chanfro), distinguindo-se por ter sofrido uma menor erosão e por possuir uma cruz esculpida na parte superior numa tentativa, como refere Almeida (1993) de “cristianizar a pedra”. O que não é possível determinar é se estes dois menires faziam parte de um conjunto mais amplo (de um alinhamento ou de um cromeleque), que foi destruído com o passar do tempo, ou se a sua proximidade era uma mera coincidência.
No extremo Norte da freguesia, no limite com Aldreu, à face de um caminho de acesso florestal, encontra-se um menir de pequenas dimensões (Figura 7). Está inserido num muro numa curva de ângulo muito fechado, pelo que tem sofrido diversas escoriações provocadas pela passagem dos tractores, estando por isso em risco. Tem cerca de 1m de altura e 0,35m de largura. Apresenta um truncamento junto ao topo, bem como aquilo que parecem ser dois fossetes, numa tentativa aparente de decorar esta peça (Maciel, 1997).
Um outro local onde se encontram diversos vestígios da Civilização Castreja é o monte do Crasto (Figuras 8 e 9). Este monte que actualmente está integrado na freguesia de Aldreu mas que, em tempos, pertenceu à antiga freguesia de S. Salvador de Palme, guarda ainda o topónimo de um povoado castrejo da Idade do Ferro, que esteve implantado neste cabeço. Embora o tempo e a acção humana se tenham encarregado de apagar a maior parte dos seus vestígios, algumas prospecções permitiram detectar vestígios de vários períodos, desde a Idade do Ferro à Idade Média. De acordo com Carvalho (2008), este castro era constituída por duas muralhas e um fosso, que estava localizado no exterior da muralha, a Nascente e que, actualmente, está atulhado. O povoado era dominado por uma pequena acrópole cuja defesa era assegurada pelas muralhas de pedra. No interior desta muralha são ainda visíveis o que resta das antigas casas de forma circular e rectangular. É no espaço delimitado pelas muralhas que se têm encontrado vestígios de várias épocas, incluindo a tégula, o imbrex e a cerâmica castreja, mas também a olaria medieva (olas, potes, fundos de alguidares, etc.). A ligação do Mosteiro de Palme ao monte do Crasto, de acordo com Almeida (1993) surge num documento medieval onde é descrito que um tal de “Alfe Tamiel” foi doado em testamento ao referido Mosteiro. Almeida (1993) acredita que este “Alfe Tamiel” é precisamente o monte do Crasto. Apesar, como se disse, deste monte não estar no perímetro da actual freguesia de Palme, esteve-o em tempos, nomeadamente quando a freguesia de S. Salvador de Palme foi extinta e o seu perímetro (onde se incluía este monte) foi anexado a Stº André de Palme. Ainda hoje, a recente toponímia adoptada nas ruas da freguesia guarda a memória deste monte, havendo um caminho baptizado por “Calçada do Cresto” (“Cresto” é uma variação errada de Crasto que os residentes locais insistem em manter).
Em suma, a histórica presença humana no território correspondente à actual freguesia de Palme, como não poderia deixar de ser, não foi um fenómeno isolado e enquadra-se no contexto da ocupação verificado na região envolvente. Esta mesma conclusão é defendida por Almeida (1993) quando refere que “os sectores que presidiram à ocupação do espaço geográfico do planalto Figueiró/Vilar, do alvéolo dos Feitos e das encostas do Monte de São Gonçalo, são as mesmas que estiveram subjacentes às zonas limítrofes que se estendem de Vila Chã a S. Bartolomeu, S. Paio e Forjães. Em toda esta zona, que vai do mar até às encostas dos montes de S. Gonçalo e de S. Mamede, não faltavam áreas com aptidão agrícola e pastagens, capazes de garantir o sustento de homens e de animais para uma zona de baixa densidade populacional”. As características da área correspondente ao planalto da Figueiró (território isolado, com abundância de água e de solos férteis, nas proximidades de montes elevados) foram, na verdade, determinantes para a fixação dos nossos antepassados, pelo que a Figueiró e Bustelo poderão ter sido os sectores onde se instalaram os primeiros e os mais importantes povoados da actual freguesia. O próprio topónimo “Bustelo” deriva do baixo latim “bustellum”, que significa pastagem. O pastoreio de gado miúdo (cabras e ovelhas), que se fazia normalmente de forma comunitária através do sistema de vezeiras, deverá ter tido muito importante para a sobrevivência destas comunidades humanas. Ainda no século XVIII surgiam referências às “Besseiras” de Bustelo e aos diversos pastos de gado existentes na Figueiró e no Monte de S. Mamede (Feitos), como descreve o Padre Gomes nas memórias paroquiais de 1758.

Figura 1: Distribuição das mámuas e do menir em Palme

Figura 2: Mámua de Bustelo 1

Figura 3: Mámua de Bustelo 2

Figura 4: Mámua do Mosteiro de Palme

Figura 5: Menir Marco da Zarelha (Junta Freguesia de Feitos)

Figura 6: Menir Pedra do Coelho (Museu Arqueológico de Barcelos)

Figura 7: Menir do Barreiro

Figura 8: Monte do Crasto - cabeço do monte

Figura 9: Monte do Crasto



Bibliografia
Almeida, C (1993) “O aro megalítico do Planalto da Figueiró-Vilar”. In Barcelos Património, Nº1, pp.19-32.
Capela, J., Borralheiro, R (1998) Barcelos nas memórias paroquiais de 1758, CMB, Barcelos.
Maciel, T (1997) O povoamento proto-histórico do Vale do Neiva, Tese de Mestrado, FLUP, Porto.
Carvalho, H (2008) O povoamento romano na fachada ocidental do Conventus Bracarensis, Tese de Doutoramento, UM, Braga.
Teotónio, A. (1987) O Concelho de Barcelos Aquém e Além Cávado, Boletim do Grupo Alcaides de Faria, Barcelos.
Oliveira, V (1982) Megalitismo do Norte de Portugal: o distrito do Porto – os monumentos e a sua problemática no contexto europeu, Tese de Doutoramento, FLUP, Porto.

terça-feira, 12 de junho de 2012

O corta-relvas

Durante as últimas semanas, o cidadão anónimo ficou a saber que os serviços secretos que supostamente deveriam estar ao serviço dos interesses e da defesa do Estado são, afinal, utilizados para servir os interesses particulares de quem lá trabalha (ou trabalhou). Fomos ainda informados que os espiões se entretém a escutar e a fazer relatórios sobre jornalistas e empresários, não por constituírem uma ameaça para o Estado, mas unicamente com o objectivo de alimentar tricas pessoais e guerras de poder. Por isso, não é de estranhar que quando estes elementos saem dos serviços secretos têm as portas escancaradas das empresas às quais cederam informações confidenciais. 

Como se esta história não fosse funesta o suficiente, ficámos ainda a saber que há uma grande promiscuidade entre os serviços secretos, o poder político e o empresarial. Os protagonistas desta história são o ex-espião Jorge Silva Carvalho (JSC) e o ministro Miguel Relvas (MR). A investigação de uma jornalista revelou que JSC enviava SMS’s e emails para o ministro com sugestões e recomendações de pessoas para determinados cargos sensíveis. MR não gostou da investigação da jornalista e é aqui que toda esta história se torna mais nauseabunda, com o ministro a pressionar a jornalista via telefone, a ameaçar fazer um “black out” ao jornal por parte do Governo e a prometer que revelaria informações da sua vida pessoal na Internet, caso ela continuasse com a investigação. MR é, em boa verdade, uma das figuras mais sinistras do actual Governo e nesta história revelou todo o seu carácter, a arrogância, a ira e a covardia que mantém para com os seus opositores, mas que consegue camuflar nos debates públicos. É uma das típicas personagens do aparelho partidário que trepou na vida à custa da politiquice, esmagando aqueles que aparecem no seu caminho. Pelo meio, administrou uma empresa que está a ser investigada por fraude e evasão fiscal. Neste caso, não foi tão sagaz como de costume e deixou-se enredar num mar de contradições e de mentiras, que são mais do que suficientes para se perceber que está enterrado até ao pescoço. Ao não ter apresentado a demissão, conclui-se que não tem um pingo de humildade; ao não ter sido demitido, percebe-se que o primeiro-ministro é fraco, pactuando agora com comportamentos que vilipendiava quando era líder da oposição. O ministro, embora chamuscado, vai continuar no seu posto. Rolaram apenas as cabeças dos elos mais fracos desta história: a da jornalista que se demitiu por considerar que não foi devidamente protegida pela Direcção do jornal e a do adjunto político do ministro. E a coisa parece que vai ficar por aqui. 

Mas nestas histórias de espionagem à Portuguesa, mesmo aqueles que julgam controlar tudo e todos, não se livram de ver a sua vida escrutinada nas situações mais inesperadas. Foi o que sucedeu a MR que, durante a sua estadia numa unidade hoteleira de Barcelos, viu interceptada uma conversa que manteve com JSC. O autor desta proeza foi o antigo agente do KGB, Viktor Gasparovsky, que está radicado em Portugal há 20 anos. Com o desmantelamento da URSS, este ex-agente perdeu o emprego e emigrou para Portugal, onde trabalhou como ajudante de pedreiro. Em 2009, com a crise no sector, caiu no desemprego e, desde então, faz biscates de detective, de segurança privada e de espionagem. Depois de ter conhecimento da presença do ministro em Barcelos, instalou-se num quarto ao lado e, por artes próprias do ofício, entrou clandestinamente nos aposentos ministeriais, onde instalou um auscultador no telefone. Depois pôs-se à escuta e gravou as conversas no seu velho ITT, comprado em Leipzig, na antiga RDA, na esperança de arranjar algum dinheiro com a venda das cassetes. Foi assim que tivemos acesso à conversa entre MR e JSC, que transcrevemos de seguida, e que contém referências surpreendentes sobre Barcelos e Palme (estes homens controlam mesmo tudo!). A compra da gravação foi complexa devido ao valor exorbitante pedido por Gasparovsky, mas depois de três encontros e de duas garrafas de Stolichnaya no bucho, conseguimos não só um preço muito razoável (5000 rublos), como ainda uma preciosa ajuda na descodificação de alguns termos indecifráveis para um leigo (ver notas finais). Então, a conversa reza assim:
  
MR: Alô, sou eu! 
JSC: Ora viva! Não estava a identificar esse número! 
MR: A praia está limpa? (1) 
JSC: Afirmativo, as gaivotas estão em mar alto. (2) 
MR: Mas parece que estou a ouvir corvos marinhos?! (3) 
JSC: Negativo, é o som da telefonia que tenho aqui ao pé. A costa está livre… 
MR: Ufa! Um gajo já nem pode falar ao telemóvel descansado, pá! Por isso estou a ligar-te deste número fixo…Vasculharam-me as SMS’s e agora até tenho receio de ter o telefone sob escuta. Andam todos em cima de mim por causa da conversa que tive com aquela fulana. O que ela precisava era de uma ensinadela…não tinha nada que investigar a minha vida! Já tens o relatório pronto? 
JSC: Posso assegurar-te que o teu telemóvel é transparente (4). Quanto ao dossier, sim, já está concluído. Não faltam aspectos comprometedores sobre a vida privada dela. Depois passo-te a informação. É uma galdéria que anda metida com aquele badameco da oposição!... 
MR: Por isso é que ela me quer entalar! Estou farto desta tropa-fandanga de jornalistas que andam todos no meu encalço. A começar no Pedro Rosa Mendes, o Ricardo Costa, o Miguel Sousa Tavares e até esses esquerdistas que estão na ERCS. Era metê-los a todo num contentor e despachá-los para o Tarrafal. A velha é que tinha razão quando disse que o melhor era suspender a democracia! 
JSC: Mas por essa e por outras é que ela perdeu as eleições... 
MR: Deixá-la que é uma rancorosa cadavérica que anda para aí. Até foi bom ter perdido. Assim, o Sócrates enforcou-se pelas próprias mãos e estendeu-nos uma passadeira para o poder. Se ela tivesse ganho era a tralha cavaquista que tinha sido convidada para o Governo. Assim estamos nós! 
JSC: E o big boss tem-te maçado muito com este caso? (5) O teu lugar está em risco? 
MR: Não, essa hipótese nunca se colocou sequer. Ele tem noção que o PSD chegou ao Governo pela minha acção enquanto secretário-geral e pelo meu papel na elaboração do programa do Governo. Se eu saísse quem é que mantinha na ordem aqueles inúteis do Álvaro ou da Cristas? Mas está aborrecido com tanta fuga de informação sobre as secretas, que envolvem pessoas do PSD e grupos económicos amigos, o que o vai obrigar a agir. A estratégia agora é a de envolver o PS no caso, afinal muitas das nomeações nas secretas vêm do tempo do Sócrates. Mas as coisas parecem já estar a acalmar… 
JSC: Mas ainda tens em mãos dossiers sensíveis, como a privatização da RTP e a reforma administrativa… 
MR: Está tudo sob controlo, não há ondas. Aliás, até me deviam agradecer, porque o que estava previsto no acordo com a Troika era a redução do número de municípios, como fizeram na Grécia. Mas eu dei-lhes a volta, acaba-se com metade das freguesias e pronto. Se me fosse meter com os municípios ia abrir uma guerra mais difícil de travar com o Ruas e o partido ia perder muitas mais câmaras nas próximas eleições. Assim, é só aguentar o tipo da ANAFRE e os presidentes de junta, que nem falar sabem! 
JSC: Não é bem assim. Tenho informações de que em alguns municípios estão a constituir-se movimentos de resistência popular à extinção das freguesias. Eu até queria falar contigo por causa disso… 
MR: Ah sim? E que municípios são esses? 
JSC: Os vermelhos da margem sul e alguns revolucionários aí de cima. Um dos que estamos a acompanhar com mais cautelas é Barcelos. O presidente da câmara é frontalmente contra e aprovaram uma proposta bloquista para referendar a fusão das freguesias. O que eles querem é ganhar tempo e legitimar, com base no veredicto popular, o não à reforma. 
MR: Eu estou cá a medir o pulso à situação e essa história do referendo não vai passar do papel. Vê lá, Barcelos que até há pouco tempo era um município tão ordeiro e respeitador da doutrina social-democrata. Não admira, agora tem à frente um gajo com o mesmo nome do marechal que se sublevou em 1926. (6) Tens que me enviar um relatório com o nome dos revolucionários para ver o que se pode fazer. 
JSC: É verdade, no tempo do Reis estas coisas não aconteciam, por maior que fosse o dislate que ele dissesse, os munícipes, humildes e mansos, logo baixavam as orelhas. Mas o filho é da mesma têmpera do pai. Em Barcelos diz ser contra a reforma administrativa e no parlamento vota ao lado do seu partido. Pode ser que um dia ainda venha a ocupar o lugar do pai e a ter busto… 
MR: Sim, é um bom deputado esse Nuno Reis. Terá um futuro promissor certamente…e que mais é que sabes sobre a situação aqui de Barcelos? 
JSC: O principal problema é o grande corte que as freguesias vão levar, o que está a indignar a maior parte dos autarcas e muitos populares. Repara que são cerca de 40 freguesias que vão de vela! 
MR: E deviam ir todas! No Conselho de Ministros em que se discutiu a suavização dos critérios inicialmente previstos eu manifestei-me contra, mas os tipos do CDS começaram a estrebuchar por causa da lavoura, dos idosos, de outras coisas e loisas e acabaram por fazer vingar a deles. Mas se fosse comigo ia tudo raso… 
JSC: Pois, mas ainda assim há concelhos em que vão haver autênticas razias, como é o caso aí de Barcelos, onde já constituíram um movimento de luta contra a fusão das freguesias, que foi subscrito por um grande número de presidentes de Junta…no dia 10 de Junho até fizeram um grande alarido numa manifestação convocada para o efeito… 
MR: Que façam o que entenderem. Se na data prevista o município não tiver uma proposta de reordenamento, cortamos-lhe as transferências de verbas e fazemos nós a reforma a régua e esquadro. Depois, as pessoas que não se venham queixar que preferiam ficar com a freguesia a ou b. Que não fossem na conversa fiada da Câmara… 
JSC: A questão não é assim tão simples. Há freguesias que, desde tempos imemoriais, têm uma convivência muito difícil com as vizinhas, o que pode complicar a fusão. Em Barcelos há vários exemplos. O mais flagrante é o da freguesia de Palme, que não se dá com os vizinhos. Não gramam os Feitos porque tiveram a desfaçatez de se desanexarem de Palme há 100 anos atrás. Como se isso não bastasse, acalentam a ambição imperialista de um dia anexarem Bustelo, um lugarejo na extrema de Palme. Com Aldreu nem se fala, por causa da contenda com a posse do Mosteiro e do histórico conflito com o limite entre as duas freguesias. Os de Palme não perdoam o ar asseado e janota dos de Aldreu e estes roem-se de inveja pela dimensão e pelo dinheiro que julgam haver em Palme. De modos que não se tragam uns aos outros. Com Carapeços, é a geografia que impede a possibilidade. Com Vila Cova é a rivalidade de se saber quem é maior, com Palme a dizer que o seu território vai para além da EN 103, o que é refutado pela outra parte. E os restantes vizinhos são de outro concelho… 
MR: Palme, não estou a ver! Mas isso assim é uma grande balbúrdia! E como é que se vai resolver o problema? 
JSC: O que eles querem é continuar com a freguesia como está. Pelo menos é essa a pretensão de um grupo de resistentes que se auto intitula MAMA-P (Movimento Associativo da Manutenção da Aldeia de Palme). Já temos os seus cabecilhas debaixo de olho… 
MR: Que desgraçados! E qual é a posição da Junta? 
JSC: A Junta é das nossas, mas é contra a extinção. O presidente é um dos signatários do movimento contra a fusão das freguesias em Barcelos e também pertence ao grupo do MAMA-P (aliás é um dos que faz mais jus ao acrónimo). Mas, em boa verdade, como está em final de mandato, a extinção da freguesia é um assunto que não o apoquenta muito (como todos os outros assuntos, aliás). Mas, neste momento, o que nos preocupa mais é a actividade dos líderes do MAMA-P. 
MR: Então porquê, têm cadastro? 
JSC: Não, mas são duros e perigosos. Reúnem-se pela calada da noite a conspirar contra o regime. Têm ideias subversivas e angariaram alguns fundos para subsidiar as actividades conspirativas. Um deles, disfarçado de trabalhador da construção civil, desloca-se com frequência ao País Basco, onde tem uma rede de contactos duvidosos. Recentemente, interceptamos uma compra em larga escala de utensílios agrícolas, que suspeitamos poderem vir a ser utilizados num eventual levantamento popular: 22 forquilhas, 18 gadanhas, 28 foicinhões, 16 machados e 7 alviões. 
MR: Mas isso não estará relacionado com os trabalhos agrícolas próprios da época? 
JSC: Não, que a agricultura em Palme é totalmente mecanizada. Além disso, detectámos a compra invulgar de 3 sacos de sal-gema. Como sabemos que têm em sua posse meia dúzia de arcabuzes, desconfiamos que a mercadoria seja para disparar tiros de sal contra as forças de ordem, que são mais letais que os de chumbo. Têm um arsenal bélico de respeito. É uma corja de facínoras mal intencionados! 
MR: Então vocês estão preocupados com meia dúzia de gatos-pingados armados com forquilhas e bacamartes do tempo dos afonsinhos? Eu falo com o Macedo que manda lá uma força de intervenção rápida e arruma com eles. Vai tudo para o chilindró! 
JSC: É melhor não menosprezar as forças populares. Quando foi a questão do aterro, fizeram marchas lentas com cortes de estrada, cordões humanos, protestos à porta da Câmara. E tinham na calha acções mais violentas se a coisa fosse para a frente…olha ainda há pouco tempo um homem foi mortalmente baleado nos montes de Palme...
 MR: Ai são esses os de Palme? Já me recordo de ver umas reportagens na televisão. Realmente alguns tinham ar de trogloditas… 
JSC: Os minhotos, em geral, quando lhes chegam a mostarda ao nariz, perdem o tino. Não te esqueças que a Maria da Fonte, que era dessa zona, varreu o país a estadulho até Lisboa. 
MR: Eu não tenho medo de ninguém e até os como de cebolada…só um momento, tenho aqui o telemóvel a tocar…deixa-me ver quem é…eh pá, vou ter que desligar, é o José Eduardo dos Santos, deve ser por causa de uns projectos da Finertec no Lubito. Olha, logo que possas envia-me o relatório desses energúmenos de Barcelos e lá da tal freguesia, de preferência com ementa completa. (7)
JSC: Ok, entendido. Bons negócios aí com o chefão (a filha dele é que é um traço)! (8) 
MR: Mas não é para o teu dente! Mas olha, não mandes o relatório para o meu email institucional, envia para o Viking por via das dúvidas. (9) Adeus! Adeus! 

 Descodificação das frases ambíguas segundo a interpretação do ex-agente do KGB Viktor Gasparovsky: 
1) MR pergunta se podem conversar à vontade, se não há ninguém à escuta (se “a praia está limpa”). 
2) JSC responde que os espiões (“as gaivotas”) estão de folga, que é seguro falarem. 
3) MR ouve ruídos na chamada (“corvos marinhos”) e suspeita que a conversa esteja mesmo a ser escutada. (Gasparovsky acha que esses ruídos eram provocados pelo velho auscultador de fabrico soviético que instalara no telefone do quarto do ministro. Os 5000 rublos vão dar para comprar um novo dispositivo). 
4) O telemóvel do ministro nunca esteve sob escuta (está “transparente”). 
5) O “big boss” é o primeiro-ministro (para decifrar esta não era preciso ter curso de espião)! 
6) Aqui o ministro revela ignorância histórica: o nome do general era Gomes da Costa e não Costa Gomes. E era general, não marechal (bem visto Gasparovsky!) 
7) O relatório deve incluir o que fazer para eliminar a actividade dos reaccionários (detenção, deportação, eliminação…). É esse o significado de “ementa completa”. 
8) JSC descreve a filha do José Eduardo dos Santos como sendo boazona (oh Gasparovsky, nós essa tínhamos percebido, não era preciso descodificação…) 
9) Viking é o endereço de email alternativo do ministro. Mas porquê Viking? matutou Gasparovsky. Por analogia aos nórdicos espadaúdos, feios e maus? Não, que eles têm a cabeça enfeitada e isso não tinha lógica a não ser que o ministro…mas não! E já no final da segunda garrafa de Stolichnaya, Gasparovski deu uma palmada na coxa: Já sei! Viking é uma marca de corta-relvas! É pela coincidência da actuação, ambos cortam: um corta nomes, pessoas, empresas, freguesias, etc.; e o outro corta mesmo relvas e outras herbáceas.

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